O Golpe Que Não Venceu

Plano de Ruptura Revelado

O Golpe Que Não Venceu
Verdeiros mentores do golpe

A democracia brasileira viveu um de seus momentos mais tensos e ameaçadores nos últimos anos, especialmente com os desdobramentos após as eleições presidenciais de 2022. A recusa do então presidente Jair Bolsonaro em reconhecer de imediato o resultado eleitoral, somada ao silêncio prolongado e à incitação indireta por meio de discursos ambíguos, alimentou a base bolsonarista com teorias de fraude eleitoral e desconfiança nas urnas eletrônicas. O que se seguiu foi uma articulação que culminou em ações golpistas, inclusive com movimentações suspeitas dentro das Forças Armadas e dos altos escalões do antigo governo, com o objetivo de deslegitimar o processo eleitoral.

Braga Netto, general da reserva e candidato a vice na chapa de Bolsonaro, tornou-se uma figura central nesse contexto. Seu papel como interlocutor entre o núcleo duro bolsonarista e setores militares preocupou autoridades e investigadores. Os diálogos revelados em investigações da Polícia Federal e depoimentos prestados ao STF apontam para reuniões onde se discutia a possibilidade de uso das Forças Armadas para intervir no resultado eleitoral, sob o pretexto de “restaurar a ordem” e garantir uma suposta lisura do processo eleitoral. Na prática, tratava-se de uma tentativa de ruptura institucional.

A situação se agravou com os eventos de 8 de janeiro de 2023, quando milhares de manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Longe de ser um ato espontâneo, o movimento foi organizado por redes bolsonaristas e teve apoio logístico e financeiro de empresários alinhados ao ex-presidente. O objetivo evidente era criar o caos, forçar uma intervenção militar e impedir a consolidação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito democraticamente com mais de 60 milhões de votos.

As investigações da Polícia Federal e os inquéritos em curso no Supremo Tribunal Federal revelam que não apenas civis participaram da tentativa de golpe, mas que havia o envolvimento direto de militares da ativa e da reserva. Esse ponto é crucial, pois demonstra que o bolsonarismo foi além do discurso político e se aproximou perigosamente de ações golpistas concretas. Entre os alvos da conspiração estavam o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes, vistos como obstáculos a serem eliminados dentro da lógica do golpe.

A possibilidade de assassinatos políticos, embora extrema, passou a ser considerada dentro do contexto investigativo, especialmente por conta de mensagens interceptadas e planos de ações clandestinas que circulavam entre radicais armados. Alexandre de Moraes, relator dos processos no STF, se tornou alvo de ameaças constantes e precisou reforçar sua segurança. O mesmo se deu com o presidente e seu vice. Esses fatos apontam para a gravidade das intenções de setores golpistas que, não satisfeitos com a derrota nas urnas, cogitaram a eliminação física de seus adversários.

As motivações por trás dessas ações vão além da ideologia. Há interesses econômicos, militares e corporativos que se viram ameaçados com a volta da esquerda ao poder. A política ambiental mais rigorosa, a retomada de investimentos públicos, o fortalecimento dos direitos trabalhistas e o combate à desinformação afetaram diretamente os interesses do bolsonarismo, que encontrou na radicalização e no discurso de ódio uma forma de reagir e tentar manter influência sobre parte da população.

É fundamental lembrar que muitos dos envolvidos nas articulações golpistas não atuaram de forma isolada. Havia uma rede organizada que incluía militares, políticos, empresários, influenciadores digitais e grupos religiosos. O objetivo comum era derrubar um governo legitimamente eleito e implantar uma forma de governo autoritária, sob a liderança de Jair Bolsonaro ou de algum nome de sua confiança. Essa tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito foi articulada com métodos que vão desde o uso de fake news até o financiamento de acampamentos e atos violentos.

A resistência institucional foi essencial para conter o avanço do golpe. A atuação do STF, especialmente de Moraes, a firmeza do Congresso e a mobilização da sociedade civil impediram que o Brasil mergulhasse em uma ditadura. Mas o risco não passou. Muitos golpistas ainda estão soltos, outros tentam se reorganizar e contam com uma base fiel de apoiadores que continuam sendo alimentados com desinformação. A responsabilização dos envolvidos é urgente e necessária para preservar a democracia.

O caso brasileiro é um alerta ao mundo. A radicalização política, quando não enfrentada com seriedade, pode levar à violência e à ruptura democrática. A tentativa de golpe não foi um evento isolado, mas o ápice de uma estratégia que vinha sendo construída desde 2018, com ataques sistemáticos às instituições, à imprensa e à verdade. O bolsonarismo representou uma ameaça real à democracia e precisa ser investigado, julgado e punido nos termos da lei.

A reconstrução institucional exige coragem e compromisso com a verdade. É dever do Estado investigar com profundidade e transparência a participação de Jair Bolsonaro, Braga Netto e demais aliados na tentativa de golpe. Se houver evidências de que planejaram, instigaram ou permitiram ações visando eliminar fisicamente autoridades ou depor o governo eleito, devem responder por seus atos com todo o rigor da Constituição. A democracia brasileira não pode permitir que crimes contra a República fiquem impunes.